4. REPORTAGENS junho 2012

1. CAPA - A BBLIA COMO VOC NUNCA LEU
2. CINCIA  AS MENTIRAS QUE O SEU CREBRO CONTA PARA VOC
3. MEIO AMBIENTE  COMIDA SEM DOR
4. TECNOLOGIA  O SILCIO  NOSSO
5. ZOOM  ESCALAS MARINHAS
6. ESPECIAL  ATLAS OLMPICO 

1. CAPA - A BBLIA COMO VOC NUNCA LEU
Pena de morte para virgens defloradas, palmadas para as crianas, regras para a poligamia.. e uma poltica radical de juros. Conhea as leis mais curiosas da Bblia. Tpico por tpico. Ao p da letra.
TEXTO ALEXANDRE VERSIGNASSI E TIAGO CORDEIRO
DESIGN JORGE OLIVEIRA
ILUSTRAO NELSON PROVAZI

Maldito aquele que no confirmar as palavras desta lei, no as cumprindo. (deuteronmio, 27:26)

     A Bblia no  apenas a Bblia. Ela tambm funciona como uma espcie de Constituio. Natural: o Livro Sagrado no  exatamente um livro, mas uma coleo de 66 livros. Alguns so basicamente de histrias, caso do Gnesis, que narra o incio dos tempos e as origens do povo de Israel. Outros no. Eram obras que, antes de entrarem para a Bblia, tinham vida prpria na forma de cdigos de conduta. Ou seja: eram verses antigas, escritas entre o sculo 10 a.C. e 5 a.C., daquilo que hoje conhecemos como cdigo civil e cdigo penal.
     Esses cdigos, essas leis, esto principalmente nos livros Deuteronmio e Levtico. Mas aparecem por praticamente toda a Bblia, inclusive no Novo Testamento, escrito a partir do sculo 1 e que revisa boa parte dessas leis. Por essas, muitos preceitos bblicos so contraditrios ou sujeitos a mais de uma interpretao. No contexto em que foram escritos, porm, eles ajudaram a formar um povo com uma identidade to forte que sobreviveria a sculos de dispora e uma religio que dominaria o mundo ocidental, diz o historiador Marc Zvi Brettler, professor de estudos judaicos da Universidade Brandeis, nos EUA. Nas prximas pginas, vamos fazer uma viagem pelas leis daquele tempo e daquele espao.  a Bblia. Mas como voc nunca leu. 

MARIDOS & ESPOSAS
As mulheres sejam submissas a seus maridos. (Colossenses, 3:18)

     O Poucas coisas mudaram tanto nos ltimos 3 mil anos como a instituio do casamento. Ento esse  o nosso primeiro tpico. Para comear, o Velho Testamento deixa claro que as mulheres deveriam ser funcionrias de seus maridos. Funcionrias mesmo: no s com deveres, mas com direitos tambm. Se uma esposa fosse demitida pelo parceiro, por exemplo, podia ganhar uma carta de recomendao, que a moa podia usar como trunfo na hora de tentar uma vaga de mulher de outro sujeito.
     No  exagero falar em vaga: um homem podia ter tantas esposas quanto quisesse (ou melhor: quanto pudesse adquirir e sustentar). A poligamia era a regra. Tanto que o primeiro caso aparece logo no captulo 4 do primeiro livro da Bblia: E tomou Lameque para si duas mulheres (Gnesis).
     A situao era to comum que vrios dos personagens mais importantes do Antigo Testamento viviam com mais de uma esposa sob o mesmo teto. Abrao acolhe uma segunda mulher a pedido de Sara, sua nmero 1, que no conseguia ter filhos. Depois a prpria Sara d  luz Isaac, enquanto a escrava Hagar tem Ismael. Nota: a tradio considera o primeiro como pai de todos os judeus e o segundo, patriarca dos povos rabes.
     O caso de Jac, filho de Isaac e tambm patriarca de todos os judeus,  o mais conhecido: ele casa com as irms Lea e Raquel, filhas de Labo. E compra o dote delas trabalhando no pastoreio do sogro por 14 anos  7 anos de labuta por cada esposa.
     Mas nunca na histria do Livro Sagrado houve maior predador matrimonial que Salomo, o rei: foram 700 esposas. Setecentas de papel passado, j que o sbio soberano ainda mantinha 300 concubinas. E tudo isso sem plula nem camisinha... Por isso mesmo o Deuternimo traz regras para a distribuio de bens entre filhos de diferentes mulheres  os rebentos de mes com mais milhagem em anos de casamento ganham mais. E os primognitos tambm. Mas por qu, afinal, a poligamia era a regra l atrs? Provavelmente porque havia mais mulheres do que homens entre os judeus, que com frequncia estavam envolvidos em guerras violentas. A poligamia, ento, era uma forma de garantir a manuteno da populao, diz o historiador Richard Friedman, professor de estudos judaicos da Universidade da Gergia. Alm disso, uma mulher solteira tinha pouqussimas alternativas para sobreviver, a no ser se prostituir. Quando um nico homem  provedor de vrias mulheres, essa questo acaba minimizada.
     O Novo Testamento no cita tantos exemplos de poligamia, mas sugere que ela ainda era comum no sculo 1. Jesus no toca no assunto, mas, em duas cartas, So Paulo recomenda que os lderes da nova comunidade crist tenham apenas uma esposa porque assim eles teriam mais tempo para dedicar aos fiis. O cristianismo s refuta a poligamia quando se aproxima do poder em Roma, que proibia a poligamia, afirma Brettler. Como escreve santo Agostinho no sculo 5, em nosso tempo, e de acordo com o costume romano, no  mais permitido tomar outra esposa.
     Escravas tambm tinham direitos: se um homem casava com uma de suas servas, s poderia se divorciar se vendesse a mulher para outro senhor. Bom para a mulher, j que evita a situao constrangedora de trabalhar para o ex  e de graa... Menos feminista  outra lei bblica: quando um homem morre e deixa uma viva, seu irmo deve casar com ela, para garantir que o patrimnio da famlia no se perca. O adultrio, adivinhe,  crime  pudera: no Brasil mesmo era crime at 2005 (deteno de 15 dias a 6 meses, segundo o artigo 240 do Cdigo Penal). A diferena  que l a pena era de morte mesmo  para ambos os envolvidos na relao sexual fora da lei.
     Mais brando  So Paulo, que d orientaes para o dia a dia do casal. Ele at diz que os homens so a cabea da relao, mas pede que os maridos respeitem as esposas. Um grande salto para as regras de matrimnio da Antiguidade.

SEXO
E possuiu tambm a Raquel, e amou tambm a Raquel mais do que a Lia. (Gnesis, 29:30)

     Alm de polgamo, qualquer homem podia ter amantes, contanto que oficiais. Eram as concubinas. Jac trabalhou 14 anos pela posse de suas duas mulheres  mas ganhou duas concubinas de bnus pelos bons servios prestados. Uma srie de regras estabelece como deve ser a vida sexual tambm: toda mulher tem de se casar virgem, ou ento poder ser dispensada pelo marido  por outro lado, se o marido acusar falsamente a esposa de no ter casado casta, deve permanecer com ela at o fim da vida. Para comprovar sua pureza, a acusada devia apresentar testemunhas dispostas a defender a limpidez do passado dela. As leis sexuais, enfim, eram bem abrangentes: Quem tiver relaes com um animal deve ser morto, diz o xodo. E masturbao tambm no pode. Como diz o sutil So Paulo: A mulher no pode dispor de seu corpo: ele pertence ao marido. E o marido no pode dispor do seu corpo: ele pertence  esposa. O sexo na Bblia  cheio de contradies, diz o arquelogo Michael Coogan, autor de God and Sex (Deus e o Sexo).  de se desconfiar que fossem realmente levados a srio naquela poca. 

NEGCIOS E FINANAS
Ao estranho, emprestars com juros. (Deuteronmio 23:30)

     A tica comercial do Livro Sagrado tem regras simples: no roubar nem trapacear no peso ou fazer nada que prejudique a outra parte. A cobrana de juros tambm  proibida. As ordens se repetem ao longo da Bblia, sempre em tom firme: No tomars dele juros nem ganho (Levtico), No emprestando com usura, e no recebendo mais do que emprestou (Ezequiel). E isso numa poca em que a grande moeda corrente eram sacos de gros. O fato  que a restrio  cobrana de juros  mais antiga do que a Bblia. As leis da Babilnia, codificadas mil anos antes, j impunham tetos na cobrana de juros, provavelmente para evitar que os mais espertos enriquecessem  custa de empobrecer o resto da sociedade. Jesus, inclusive, radicaliza. No s condena os juros como tambm a cobrana do principal (a quantia emprestada inicialmente): E se emprestardes queles de quem esperais receber, que mrito h nisso? (Lucas). Cristo, alis, d muita ateno  cobia. No podeis servir a Deus e s riquezas (Mateus, 6:24), diz. E pede que seus seguidores faam como os lrios-do-campo, que recebem proteo e alimento da divindade sem precisar trabalhar. Tambm diz, para desespero de um fiel cheio de posses, um de seus maiores hits verbais:  mais fcil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Cus. Mas existe uma exceo na poltica bblica de juros: nos casos em que o emprstimo  concedido a um no-judeu (um estranho, nas palavras do Deuternimo),  permitido praticar a usura. At por isso os judeus se tornaram os grandes banqueiros da Idade Mdia. Os cristos tambm respeitavam a Bblia, e no emprestavam a juros entre si (para eles, os estranhos eram os judeus). Mas num mundo sem juros o estmulo para conceder emprstimos  nulo. Ento a maioria crist pedia emprstimos para quem os concedia, a juros  as minorias judaicas. O fato de os judeus no terem direito  posse de terras tambm ajudava  emprestar a juros era uma das poucas formas de renda possveis para quem no tinha como plantar para acumular excedentes.
     Se o Livro Sagrado probe a cobrana de juros, mas s entre judeus, o mesmo vale para a escravido. Voc pode ter escravos, contanto que sejam das naes que esto ao redor de vs; deles comprareis escravos e escravas, diz o Levtico. Mas havia uma exceo: era possvel a um judeu endividado vender a si mesmo para o credor.
     A escravido era comum entre todos os povos daquela rea, mas os servos eram relativamente bem tratados, sem violncia desnecessria. Os prprios israelitas seriam respeitados quando foram forados ao exlio na Babilnia, afirma a historiadora Catherine Hezser, professora de histria das religies da Universidade de Londres e autora de Jewish Slavery in Antiquity (Escravido Judaica na Antiguidade).
     Por isso mesmo, os israelitas so orientados a conceder uma srie de direitos a seus escravos, que servem por 6 anos, e no stimo so libertados. Se ele for escravizado com a esposa, os dois so libertados juntos. At para punir os indisciplinados existem regras  se o dono arrancasse um olho do servo, seria obrigado a libert-lo (xodo). Ou seja: a Bblia tambm servia como uma espcie de CLT para escravos.
     Mas a parte mais humanista nas relaes de trabalho previstas na Bblia  uma regra para os fazendeiros: sempre deixar sem colher as plantaes das bordas do terreno. Para qu? Para que as pessoas mais pobres, sem-terra, possam aproveitar essa parte.

MARVADO VINHO 
O chefe do servio provou [o vinho que Jesus criara a partir da gua] e falou com o noivo: Tu guardaste o melhor vinho at agora! (Joo 2, 7-10)

     O lcool nem sempre foi consumido com moderao na Bblia. A palavra vinho  citada mais de 200 vezes, e os porres so frequentes: No  embebedado pelas filhas e Amnon, filho de Davi, est mais pra l do que pra c quando  assassinado por ordem de seu irmo Absalo  a quem interessar: foi pelo crime de ter estuprado a prpria irm, Tamar. Os sacerdotes so orientados a no beber antes de entrar no templo, e o lcool  relacionado  perda de controle pessoal e da capacidade de diferenciar o bem do mal. Mas nada no texto bblico probe o consumo, diz historiador Marc Zvi Brettler.
     O lcool chega a ser recomendado para curar os males da alma. Est no livro Provrbios: Dai bebida forte ao que est prestes a perecer, e o vinho aos amargurados de esprito.
     s vezes, a coisa era uma festa da uva mesmo. Davi, num arroubo de populismo, oferece uma jarra de vinho a cada cidado de Israel. E tem o primeiro milagre de Jesus: transformar gua em vinho  segundo o evangelista Joo, no melhor vinho da festa. So Paulo vai mais alm: recomenda a um discpulo, Timteo, que troque a gua pelo vinho. A dica tinha um motivo prtico. As vezes, naquele tempo, era mais saudvel consumir lcool do que gua, que frequentemente era insalubre, diz Brettler. 

SADE E EDUCAO
O Sacerdote examinar a praga na pele da carne; se o pelo na praga se tornou branco, (...)  praga de lepra; o sacerdote o examinar, e o declarar por imundo. (Levtico 13:3)

     A medicina bblica  obcecada por manchas na pele  uma preocupao muito compreensvel para um povo que vivia no deserto, sob um sol escaldante. Os lderes religiosos  que faziam o papel de mdicos. Quando um homem tiver na pele inchao ou pstula, ento ser levado a Aro ou a um de seus filhos, os sacerdotes (Levtico).
     Os sacerdotes avaliavam pessoalmente cada caso suspeito, seguindo as regras estabelecidas por Deus, transmitidas a Moiss e transcritas no Livro Sagrado. Primeiro, passar azeite sobre o ferimento (o mesmo produto tambm  recomendado para lavar os cabelos). Depois de uma semana, no retorno da consulta, vem o diagnstico definitivo: se o pelo sobre a mancha estiver mais claro, e a ferida estiver mais funda do que a pele, o doente tem lepra.
     A partir desse momento, a vtima no tem mais espao na comunidade.  obrigada a andar pelas ruas, anunciando sua condio para evitar que desavisados entrem em contato com o doente e tambm sejam contaminados. Ocasionalmente, profetas conseguiam curar leprosos. No Novo Testamento, os sacerdotes cristos so indicados para curar todo tipo de doena. A orao da f salvar o doente, e o Senhor o levantar (Tiago).
     A preocupao com a pele no era a nica norma de conduta social. Era proibido cortar e aparar a barba ou vestir tecidos que misturassem l e linho (Levtico)  hoje, entre as comunidades que buscam seguir a Bblia ao p da letra, existem testadores de tecido, especializados em monitorar a composio das roupas com um microscpio e impedir fiis de desobedecer  orientao e cometer pecado. Pela regra, tambm  importante vestir sapatos seguindo uma ordem  primeiro o p direito. Se for necessrio amarr-lo,  o contrrio: primeiro o esquerdo.
     A Bblia tambm orienta na educao dos filhos. Eles devem ser apresentados a Deus recm-nascidos e, no caso dos meninos, circuncidados no oitavo dia de vida. Ao longo da infncia, os pais tm a obrigao de repassar a eles a palavra de Jav. J o Novo Testamento  mais pedaggico, digamos assim: enfatiza a educao pelo bom exemplo dos pais, para que os jovens respeitem a Deus e se comportem corretamente por vontade prpria, e no porque foram forados. Criar adultos calmos e centrados tambm  importante. E vs, pais, no provoqueis vossos filhos  ira, mas criai-os na disciplina e na admoestao do Senhor (Efsios). Quando no funcionar, o Antigo Testamento indica que um basto flexvel deve ser usado para bater nos desobedientes (no Brasil, seu uso poder trazer problemas com a Justia caso seja aprovada a Lei da Palmada). O objeto tem at nome, vara da correo, e  indicado para qualquer situao em que o pai considere que a criana no seguiu suas instrues.
     A vara e a repreenso do sabedoria, mas a criana entregue a si mesma envergonha a sua me (Provrbios), diz o texto bblico, que promete: o castigo pode dar frutos no futuro. Disciplina seu filho, e este lhe dar paz, trar grande prazer a sua alma. Mas cuidado  a punio no pode ser exagerada: Castiga seu filho, mas no te excedas a ponto de mat-lo (Provrbios).

HOMOSSEXUALIDADE
Estou angustiado por causa de ti, Jonat. Mais maravilhoso me era teu amor do que o amor das mulheres (Samuel II 1, 26)

	O amor entre homens era punido com a morte  a no ser que voc fosse o rei Davi. Os livros Samuel I e Samuet II contam a histria da amizade entre ele e Jonat, filho do rei Saul, antecessor de Davi e candidato natural ao trono de Israel. Davi acaba escolhido para a sucesso, mas isso no abala o relacionamento dos dois. Est escrito: A alma de Jonat se ligou com a alma de Davi. E Jonat o amou, como  sua prpria alma (Samuel I). Em outra passagem, Jonat tira todas as roupas, entrega a Davi e se deita com ele. E inclinou-se 3 vezes, e beijaram-se um ao outro (Samuel 1). Esse relato incomoda os intrpretes tradicionais da Bblia, que tentam explicar a relao como uma forte amizade, e o beijo como um costume comum entre homens, diz o historiador finlands Martii Nissinen, da Universidade de Helsinki e autor de Homoeroticism in the Biblical World (Homoerotismo no Mundo Bblico). Mas  difcil negar a referncia  homossexualidade nesse caso, mesmo que a lei judaica a proba expressamente. Em mais de uma ocasio, os relacionamentos entre homens so chamados de abominao e pecado contra Jav. Para alguns especialistas, o Antigo Testamento tambm sugere um relacionamento homossexual entre duas mulheres, Noemi e sua nora Rute. Est no livro de Rute um trecho em que ela diz a Noemi: Aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu. Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada.

SACRIFCIOS
Derramar-se- seu sangue em volta do altar. Ser oferecida a cauda, a gordura que cobre as entranhas, os dois rins e a pele que recobre o fgado. (Levtico 7, 2-4)

     Muito sangue jorra na Bblia. Abrao  orientado a sacrificar seu prprio filho Isaac a Jav  e teria obedecido, caso um anjo no aparecesse no ltimo minuto dizendo era tudo um teste para sua f. Alm disso, durante os 40 dias em que detalha suas regras ao patriarca, Deus exige uma srie de sacrifcios de animais.
     Os rituais so descritos com grande riqueza de detalhes. Moiss manda matar e drenar 12 bois. O sangue  colocado numa tina. Metade  lanada no altar e o resto sobre a multido. Carneiros abatidos so esfregados no corpo de fiis, que seguram seus rins nas mos para oferec-Los a Jav. Pedaos de bichos so queimados sobre o altar. Era uma forma de trocar favores com os deuses. Por isso mesmo, o sacrifcio de animais existe em praticamente todas as culturas da Antiguidade. O sangue  o maior smbolo da vida. Ao us-lo em rituais, os fiis reforavam seu vnculo com a divindade e se purificavam, diz Richard Friedman.
     Jesus aparece com uma novidade: no pede sangue animal. Eu quero a misericrdia, no o sacrifcio. Friedman explica: Na interpretao crist posterior, o prprio Jesus  considerado o sacrifcio final, que limpa os pecados da humanidade de forma definitiva, o que dispensa a morte de animais.

CRIME E CASTIGO
Quando houve moa virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, ento trareis ambos at que os apedrejareis, morram (Deutermio, 22: 23-24)

     Sequestro, adultrio, homossexualidade, prostituio... Tudo isso dava pena de morte. At fazer sexo com uma virgem poderia custar a vida do criminoso. Esse caso, alis,  um labirinto jurdico: se um homem transar com uma virgem dentro de uma cidade, os dois morrem; se for no campo, s ele. A lgica  que, dentro da cidade, algum ouviria a virgem gritando por socorro caso o sexo no fosse consentido. Se ningum ouviu  porque ela no gritou, supe a lei. E se no gritou  porque cometeu um crime tambm  o de consentir. No campo  diferente: no d para saber se ela gritou ou no. Na dvida, ento, morre s o homem.
     Matar tambm dava em pena de morte, claro: Se algum derramar o sangue do homem, pelo homem se derramar o seu (Gnesis). Adorar outros deuses tambm trazia problemas srios, j que  sinal de desobedincia a um mandamento fundamental: No ters outros deuses diante de mim. Moiss chega a mandar matar 3 mil judeus por causa disso.
     Matar o prprio escravo tambm trazia problemas. Se algum ferir seu escravo ou sua escrava com um basto e morrer sob suas mos, seja punido severamente, mas se sobreviver um ou dois dias, no seja punido, porque  seu dinheiro (xodo). A pena indicada, nesse caso,  o aoite, com um limite de 40 chibatadas.
     O Levtico tambm manda matar prostitutas a pedradas, a no ser que a moa de vida fcil seja filha de um sacerdote. A a punio  pior: Com fogo ser queimada. A regra seria fortemente contestada por Jesus, com a famosa frase que salvou Maria Madalena: Aquele que no tem pecado atire a primeira pedra. Ainda assim, nem todos os autores do Novo Testamento parecem concordar com a recomendao de Cristo. As cartas de so Paulo, por exemplo, defendem o respeito  lei romana, que autoriza o apedrejamento a prostitutas.
     Como o Antigo Testamento no aceita o aborto,  crime provoc-lo, mesmo que por acidente, mas a pena depende da gravidade da situao. Se dois homens brigarem e, no meio do quebra-pau, ferirem sem querer uma mulher grvida que estava por perto e provocarem a morte do feto, os dois vo pagar uma indenizao estabelecida pelo marido  que perdeu um bem precioso, seu herdeiro. Agora, se a me ficar gravemente ferida ou morrer, ento vale a famosa lei do Talio  Olho por olho, dente por dente, mo por mo, p por p, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe (xodo). Em geral, a pena de morte por apedrejamento no precisava ser julgada pelos sacerdotes. A maioria dos crimes recebia a punio na hora, diante de um grupo de pessoas que presenciaram a cena ou que estavam por perto da cena do crime e foram informadas. Mas tambm existem regras mais amenas, estas, sim, negociadas dentro dos tribunais e com direito a defesa do acusado. Por exemplo: o Antigo Testamento estabelece que toda mulher menstruada  to impura que at mesmo os lugares onde ela se senta devem ser evitados. Se um homem encostar na esposa, na me ou na irm nesse perodo do ms, ele no pode sair de casa por sete dias. E, se fizer isso, pode ter de pagar uma multa.
     Em caso de roubo e furto ou qualquer outro prejuzo ao patrimnio alheio, como matar por acidente o cabrito do vizinho, a pena  o pagamento de 4 vezes o valor do bem que foi levado ou destrudo. Se a pessoa que cometeu a infrao no tivesse condies de pagar, podia ser vendida como escrava.
     Tudo isso,  claro, so aspectos de uma vida cotidiana que no existe mais. Mas com a mensagem essencial dos textos sagrados  diferente. E essa mensagem pode ser resumida em uma frase, que tambm ecoa em todas as grandes religies da Terra: no faa aos outros o que voc no gostaria que fizessem com voc. Ou mais ainda, como Jesus diz no Evangelho de Mateus: Tudo o que vs quereis que os homens vos faam, fazei-lho tambm vs. Est a uma recomendao impossvel de refutar. E que geralmente traz timos resultados. Em qualquer lugar, em qualquer tempo.

PARA SABER MAIS
Everyday Life in Bible Times. Arthur W. Klinck, Concordia College, 2006
Living Judaism. Wayne Dosick, HarperCollins, 2007


2. CINCIA  AS MENTIRAS QUE O SEU CREBRO CONTA PARA VOC
Voc no toma as prprias decises  e boa parte do que v no  real.  apenas uma iluso criada pelo seu crebro, que passa pelo menos 4 horas por dia enganando voc. Conhea os truques que ele aplica  e saiba o que realmente acontece dentro da mente.
TEXTO ALEXANDRE DE SANTI
DESIGN RAFAEL QUICK

     Voc fica cego 4 horas por dia. J foi enganado por um rtulo nesta semana. Tem preconceitos sobre todos os assuntos (por mais que ache que no). Toma decises irracionais, que vo contra os seus interesses. Voc no est no controle da prpria mente. Mas no se preocupe: voc  normal. No  maluco e possui um crebro perfeito, como o de qualquer outra pessoa. S que ele inventa coisas para iludir voc. No  por mal.  s uma maneira de economizar energia.
     O crebro humano  o objeto mais complexo do Universo. Tem 100 bilhes de neurnios, que podem formar 100 trilhes de conexes. Se fosse possvel criar um computador com o mesmo nmero de circuitos do crebro, ele consumiria uma quantidade absurda de eletricidade: 60 milhes de watts por hora, segundo uma estimativa de cientistas da Universidade Stanford.  o equivalente a quatro usinas de Itaipu trabalhando simultaneamente. Mas o crebro humano gasta pouqussima energia  20 watts, menos que uma lmpada. E mesmo assim consegue fazer coisas extremamente sofisticadas, de que nenhum computador  capaz.
     S que isso tem um preo. O seu crebro no consegue analisar as situaes de forma completamente racional, avaliando todas as variveis envolvidas em cada caso. Para fazer isso, ele precisaria de ainda mais circuitos  e muito mais energia. Mas, ao longo da evoluo, a natureza encontrou uma soluo: o crebro pode mentir para seu dono. Sim, mentir. Descartar informaes, manipular raciocnios e at inventar coisas que no existem. Dessa forma,  possvel simplificar a realidade  e reduzir drasticamente o nvel de processamento exigido dos neurnios. So efeitos colaterais do funcionamento normal do crebro, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
     Tudo comea pela viso. Voc no percebe, mas o crebro edita o que voc v. Das 16 horas por dia que uma pessoa passa acordada, em mdia, 4 horas so preenchidas por imagens artificiais  que no foram captadas pelos olhos, e sim criadas pelo crebro.
     O olho humano s capta imagens com clareza em uma pequena parte, a fvea, que tem 1 milmetro de dimetro e fica no centro da retina. Ento, para compor a linda imagem que voc est vendo agora, os seus olhos esto constantemente em movimento. Eles focam determinado ponto e depois pulam para o ponto seguinte. Cada um desses saltos tem durao de 0,2 segundo. Quer comprovar isso na prtica? Na prxima vez em que voc estiver conversando com uma pessoa, preste ateno nos olhos dela. Voc ir perceber que eles se movimentam o tempo todo para escanear vrios pontos do seu rosto.
     O problema  que a cada pulo desses, enquanto os olhos esto se movendo para a prxima posio, o crebro deixa de receber informao visual por 0,1 segundo. Durante esse tempo, voc est cego. E, como nossos olhos fazem pelo menos 150 mil pulos todos os dias, o resultado so 4 horas dirias de cegueira involuntria. Voc no percebe isso porque o crebro preenche esses momentos com imagens artificiais, que do a sensao de movimento contnuo. Mas que, na prtica, voc no viu.
     Tem mais: o que voc enxerga no  o que est acontecendo  e sim o que vai acontecer no futuro.  srio. Isso acontece porque a informao captada pelos olhos no  processada imediatamente. Ela tem de passar pelo nervo ptico e s depois chega ao crebro. O processo leva fraes de segundo, e voc no pode esperar  um atraso na viso pode fazer com que voc seja atropelado ao atravessar a rua, por exemplo. Ento, o que faz o crebro? Inventa. Analisa os movimentos de todas as coisas e fabrica uma imagem que no  real, contendo a posio em que cada coisa dever estar 0,2 segundo no futuro. Voc no v o que est acontecendo agora, e sim uma estimativa do que ir acontecer daqui a 0,2 segundo.

As mentiras invadem a razo
Com R$ 1,10, voc pode comprar um caf e uma bala. O caf custa R$ 1 a mais do que abala. Quanto custa a bala? Responda rpido. Dez centavos, certo? Errado. Voc acaba de ser enganado pelo prprio crebro. Mas no est sozinho  mais da metade dos estudantes de universidades prestigiadas como Harvard, MIT e Princeton responderam a essa mesma pergunta e tambm erraram (entre alunos de instituies menos badaladas, o ndice de erro  ainda maior, cerca de 80%). Essa charada  um dos exemplos citados no livro Thinking, Fast and Slow (Pensando, Rpido e Devagar, ainda sem verso em portugus), do psiclogo israelense Daniel Kahneman, que ganhou o Prmio Nobel de Economia por suas pesquisas sobre o comportamento humano.
     Para Kahneman, o crebro tem dois tipos de pensamento. O primeiro  rpido e intuitivo e confia na experincia, na memria e nos sentimentos para tomar decises. O segundo  lento e analtico  e serve como uma espcie de guardio do primeiro.
     Se estamos decidindo sobre o que comer, podemos ficar em dvida entre um sanduche e um prato de feijo. Mas por que essas duas opes, justo elas, surgiram como as alternativas vlidas para o momento? Por que voc no considerou um bacalhau com batatas? Por que no um sorvete de abacaxi? Porque o seu pensamento intuitivo j estava inclinado para optar pelo sanduba ou pelo feijo e restringiu previamente as escolhas antes mesmo que voc se desse conta de que estava chegando a hora de almoar. Do contrrio, passaramos horas avaliando todas as possveis opes de refeio  e morreramos de fome. Se o pensamento intuitivo no existisse, seria extremamente difcil escolher uma roupa ou responder a perguntas banais, do tipo como voc est? ou gostou do filme?. De certa forma, o pensamento intuitivo  o que nos diferencia dos robs. E  ele que permite ao crebro processar informaes na velocidade necessria. Ele  mais influente.  o autor secreto de muitas decises e julgamentos que voc faz, explica Kahneman no livro. Foi o pensamento intuitivo que apontou os dez centavos como resposta para o enigma do caf. S que ele mentiu para voc. A resposta certa  R$ 0,05. Se a bala custasse R$ 0,10, o caf custaria R$ 1,10  e o total daria R$ 1,20.
     Esse duelo entre os dois tipos de pensamento, o rpido-intuitivo e o lento-analtico, tambm tem uma explicao evolutiva. O crtex pr-frontal, regio do crebro responsvel pelo processamento lgico, surgiu relativamente tarde na evoluo da espcie humana  j as emoes e os instintos estavam com nossos ancestrais h muito mais tempo. Por isso elas so to fortes e nos influenciam tanto. A filosofia considera o ser humano um animal racional. Mas o que sabemos  que apenas em certas circunstncias e  custa de muito esforo conseguimos ser racionais, afirma Vitor Haase, mdico e professor de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
     O pensamento intuitivo est sempre presente, at nas situaes em que a racionalidade  supremamente importante. Um estudo de pesquisadores das universidades de Ben Gurion, em Israel, e Columbia, nos EUA, analisou o comportamento de juzes que deveriam decidir sobre a liberdade condicional de presos (um processo rpido, que leva 6 minutos). Em mdia, somente 35% dos condenados ganhavam a condicional. Mas os cientistas perceberam que os juzes eram muito mais benevolentes depois de comer. Quando eles tinham acabado de fazer uma refeio, a taxa de aprovao subia para 65%. Com o passar do tempo, a fome vinha chegando, e a concesso de liberdade condicional ia caindo. Minutos antes do prximo lanche, o ndice de aprovao era quase zero.
     Decidir sobre liberdade condicional e julgar a prpria felicidade so tarefas complexas. Para avaliar todas as variveis envolvidas, muitas delas subjetivas, o crebro tenderia a ficar sobrecarregado. Por isso, ele usa atalhos. Os nossos problemas so resolvidos no piloto automtico, atravs de solues que a cultura j embutiu no nosso crebro, diz Haase.
     Estudos tm revelado outra distoro: toda pessoa sempre tende ao otimismo, mesmo quando no h motivos para isso. A pesquisadora Tali Sharot, da University College London, gravou a atividade cerebral de voluntrios enquanto eles imaginavam situaes banais  como tirar uma carteira de identidade. Ela tambm pediu que os voluntrios pensassem em coisas do passado. Os testes mostraram que as mesmas estruturas cerebrais so ativadas para recordar o passado e imaginar o futuro. S que, ao imaginar o futuro, os voluntrios criavam cenrios magnficos  era o crebro tentando colorir os eventos sem graa. Cerca de 80% das pessoas tm tendncia ao otimismo, algumas mais do que outras, diz ela. Para Tali, autora do livro Optimism Bias (O Vis do Otimismo, ainda sem verso em portugus), o otimismo  sempre mais comum que o pessimismo  seja qual for a faixa etria ou o grupo socioeconmico da pessoa. Assim, nunca acreditamos que algo v dar errado  mesmo quando o mais racional seria pensar que sim. As taxas de divrcio, por exemplo, chegam a 40%, 50%. Mas as pessoas que esto para casar sempre estimam suas chances de separao em 0%, exemplifica Tali. Segundo ela, a inclinao natural ao otimismo tambm  um dos fatores que levaram  crise econmica global de 2008. As pessoas achavam que o mercado continuaria subindo cada vez mais e ignoraram as evidncias contrrias, afirma.

Ele est no controle
     As manipulaes criadas pelo crebro afetam at a capacidade mais essencial do ser humano: tomar as prprias decises. Quando voc decide alguma coisa, na verdade o crebro j decidiu  com uma antecedncia que pode chegar a 10 segundos. Uma experincia feita no Centro Bernstein de Neurocincia Computacional, em Berlim, comprovou que as nossas escolhas so resolvidas pelo crebro antes mesmo de chegarem  conscincia. Voluntrios foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma sequncia aleatria de letras. O voluntrio tinha que escolher uma das letras e apertar um boto sempre que ela aparecesse. Os cientistas monitoraram o crebro dos participantes durante o experimento. E chegaram a uma descoberta impressionante: 10 segundos antes de os voluntrios escolherem uma letra, sinais eltricos correspondentes a essa deciso j apareciam nos crtices frontopolar e medial, as regies do crebro ligadas  tomada de decises. Cinco segundos antes de o voluntrio apertar o boto, o crebro ativava os crtices motores, que controlam os movimentos do corpo. Isso significa que, 10 segundos antes de voc fazer conscientemente uma escolha, o seu crebro j tomou a deciso para voc  e at j comeou a mexer a sua mo.
     O individuo no  livre para escolher, afirma Renato Zamora Flores, professor de gentica do comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O crebro restringe previamente as suas possveis opes e, pior ainda, escolhe uma delas antes mesmo que voc se d conta.
      possvel lutar contra isso. Lembra-se daquele outro tipo de pensamento, o lento-analtico? Basta coloc-lo em ao. E isso voc consegue tendo calma, refletindo sobre as coisas e duvidando das suas escolhas e opinies. Os truques do crebro so poderosos, mas no invencveis. Agora que voc sabe como funcionam, est muito mais preparado para lidar com eles  e se tornar realmente livre para tomar as prprias decises. 

PARA SABER MAIS
Como a Mente Funciona, Steven Pinker, Companhia das Letras, 1998.
Thinking, Fast and Stow, Danie Kahneman, Farrar, Straus and Giroux, 2011.


3. MEIO AMBIENTE  COMIDA SEM DOR
Lagostas fervidas vivas. Gansos forados a comer at no digerir mais. Atuns caados at a extino. Tubares aleijados. Isso pode ter fim. Fazendeiros, chefs e cientistas buscam alternativas para alguns dos pratos mais sofisticados  e polmicos  da culinria. E esto conseguindo. Sem abrir mo do sabor.
TEXTO FELIPE VAN DEURSEN
DESIGN RICARDO DAVINO
FOTOS ALEX SILVA

A LAGOSTA
A cena  famosa. Est at nos desenhos animados. Escolher a lagosta que ser fervida viva para o deleite  ou trauma  dos comensais. O motivo  manter o frescor da carne. Sandio Dias, professor de histria da gastronomia no Centro Universitrio Senac, afirma que livros clssicos de culinria ensinam a tratar crustceos como bichos que no sentem dor. Mas o cerco  prtica est montado. Unio Europeia e Nova Zelndia, por exemplo, j tm leis que protegem a lagosta. E h pessoas buscando novas maneiras de tratar o animal.  o caso do advogado britnico Simon Buckhaven, que largou o direito quando, de frias na Frana, pediu lagosta ao filho  e se arrependeu. Por 10 anos, Buckhaven desenvolveu, com o apoio da Universidade de Bristol, no Reino Unido, um equipamento que eliminasse a possvel dor do animal (a ideia de dor nos crustceos foi por anos debatida pela cincia, mas os ltimos estudos indicam que, sim, eles sofrem) e mantivesse seu to afamado sabor. O resultado foi o Crustastun, equipamento do tamanho de um micro-ondas cujos eletrodos emitem uma frequncia que promete anestesiar o sistema nervoso da lagosta em meio segundo. A morte vem em 5 segundos, contra longos minutos na panela. A empresa, lanada em 2010, vendeu a mquina a 80 restaurantes no ano passado. Nenhuma para o Brasil ou a Amrica do Sul, que ainda no demonstraram o menor interesse, diz Buckhaven. O Crustastun na verso para restaurantes (h uma maior, industrial) custa  2,5 mil (cerca de R$ 8 mil).

MAS E A,  BOM?
Para o chef Giorgio Locatelli, do Locanda Locatelli um dos melhores restaurantes de Londres segundo o Guia Michelin, prestigiada publicao francesa de gastronomia, lagostas preparadas com o aparelho ficam melhores. A carne  mais macia e suculenta. Mantm a umidade, diz.

O GANSO
     So 30 cm de comprimento. A ave engole uma torrente de rao que desce pelo cano metlico, completamente enfiado em seu esfago. Por 10 segundos, 4 vezes ao dia, o animal parece mais um saco de penas preenchido com milho. Nas horas vagas, digere a refeio enquanto aguarda a prxima sesso em uma gaiola individual. Aps cerca de um ms, seu sistema digestrio no suporta mais comida.  hora do abate. S na Frana, maior produtora e consumidora, seu fgado movimenta um mercado de R$ 3,8 bilhes ao ano. No  um fgado comum. Ele cresce at 10 vezes de tamanho.  um fgado gordo. Ou seja, um foie gras.
     A alimentao forada (gavage) de gansos e patos  o meio usado para produzir foie gras em escala industrial e abastecer refeies sofisticadas que celebram essa iguaria de textura amanteigada no mundo todo. Mas a presso pelos bons tratos aos animais j conseguiu sua proibio em alguns lugares. Em julho, ele deve ser banido dos menus na Califrnia. E isso est abrindo espao para uma gastronomia mais tica. Para seus defensores, no  preciso eliminar o foie gras, com 5 mil anos de histria e eleito, em uma pesquisa do Ministrio da Economia francs, o smbolo mximo da culinria mais sofisticada do mundo. A ideia  provar que se deliciar sem culpa pode ser possvel.
     Egpcios, gregos e romanos j conheciam as delcias dos fgados inchados. Homero menciona a prtica na Odisseia diz Mark Caro no livro The Foie Gras Wars (indito em portugus). E  essa capacidade que os produtores exploram h sculos, a ponto de muitos deles dizerem que no existe foie gras sem gavage. No  o que pensa um fazendeiro de Estremadura, na Espanha. H 200 anos, a Patera de Sousa gaba-se de fazer pats ecolgicos. L, as aves so criadas em liberdade e tm alimentao baseada em frutas e sementes da prpria fazenda (e sem os sinistros tubos). E ela tira vantagem de um detalhe que a indstria, devido  demanda incessante o ano todo, ignora: patos e gansos engordam naturalmente com a chegada do frio. So aves migratrias, que acumulam gordura para suportar a viagem. O que o proprietrio Eduardo Sousa faz  oferecer o que elas procurariam ao sul: figos, nozes, sementes etc. Sem precisar prend-las. Com a ajuda do clima favorvel da regio, ele as convence a ficar para o inverno. Hoje Sousa  reconhecido por fazer um foie gras de primeira linha, mas seus desafios so enormes. Para criar 1000 gansos, preciso de 12 meses, 500 hectares e muitas rvores para fazer o que eles conseguem em 15 dias e 100 m2, diz, referindo-se aos produtores tradicionais. O resultado  um foie gras ainda mais caro. O pote de 180 g custa  165 na Espanha. Mas a demanda  grande. A importadora brasileira Rosa Maria Zoboli comprou por impulso toda a produo de Sousa em 2011: 540 disputados frascos, que devero custar at R$ 400. Todo o foie gras de Sousa j devia estar no Brasil, no fosse o calor em Estremadura no inverno, que atrasou a engorda. Zoboli ainda no viu a cor amarelo-radioativo do foie gras. Mas ela (que tambm teve sua epifania verde ao pedir uma lagosta de frias na Frana) acha que vale a pena. Dependemos dos caprichos da natureza, explica Sousa. Desafios de quem no trata a comida como indstria.

MAS E A,  BOM?
H chefs que torcem o nariz para a falta de confiabilidade na produo de Sousa (afinal, Zoboli pagou e ficou na mo). Mas o espanhol tem fs confessos, como Dan Barber, cone da gastronomia sustentvel e um dos maiores chefs do mundo.  inacreditvel, melhor que qualquer um, diz  SUPER.

O ATUM
Na dcada de 1970, um peixe que at ento era usado para fazer rao de gato virou iguaria: o atum. E  de uma espcie de atum, o atum-azul, mquina de meia tonelada, 3 m de comprimento e veloz como uma lancha, que vem um dos itens mais cultuados da culinria do Japo: uma camada de gordura chamada toro. O problema  que o peixe est acabando. As 6 milhes de toneladas de todas as espcies de atum que consumimos por ano colocaram o atum-azul na lista de animais mais ameaados de extino da ONG WWF. Para combater isso, h 3 caminhos. O primeiro so fazendas marinhas. Vivel, mas uma medida cara. O atum azul  um animal selvagem, que vive em constante migrao e come 10 vezes mais que um salmo de cativeiro, por exemplo. E atum de fazenda produz carne de menor qualidade, segundo especialistas. Outra alternativa  a substituio do azul por uma verso desenvolvida pela Universidade Kinki, no Japo: o kindai.  um atum-azul domesticado, sem o comportamento que o faz ser comparado a um tigre do mar. A terceira, defendida por especialistas como o jornalista americano Trevor Carson, autor de The Story of Sushi (indito em portugus),  a mais radical: abandonar o toro. Para ele, trata-se de comida pouco sofisticada e culturalmente irrelevante. No faria falta. Se a ideia  apreciar a qualidade do atum-azul, coma a carne dele, akami. Se  para comer a gordura que derrete na boca, que os fs adoram, v de atum-branco, diz. O chef Helio Takeda, professor de gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, largou o toro devido  ameaa ao atum-azul. Podemos comer peixes, como carapau ou atum-amarelo, que  abundante no Brasil. Mas no tm a mesma qualidade, diz.

MAS E A  BOM?
Atum-branco  menos sofisticado que toro, mas  uma boa alternativa, diz Carson. E kindai pode ser ainda melhor.  peixe de fazenda, pode ter mais gordura, mais toro. Mas ele lembra que ainda se debate se kindai  uma medida sustentvel devido aos altos custos de manuteno das fazendas.

O TUBARO
Sopa de barbatana de tubaro  uma sofisticada iguaria chinesa, consumida nas alas mais tradicionais do pas e tambm em restaurantes ao redor do mundo. O costume  responsvel pela matana de mais de 70 milhes de tubares todos os anos. A pesca  controversa porque consiste simplesmente em pegar os peixes, cortar suas barbatanas e jog-los de volta ao mar, onde, incapacitados de se orientar, afundam e sangram at a morte. Por causa da gastronomia. Estima-se que algumas espcies estejam reduzidas a 1% da populao de 10 anos atrs, segundo a revista Scientific American. O grande desafio de combater seu consumo  que, assim como o foie gras, trata-se de um costume histrico, com 700 anos de tradio. A sopa  servida em casamentos e comemoraes. Embora esteja caindo de popularidade entre as camadas mais ocidentalizadas, onde  substituda at por vinho francs (a questo principal  o status, acima do sabor, afinal), a sopa ainda  popular na China e em Taiwan. E  nessa ilha que alguns pesqueiros investem em uma alternativa mais ecologicamente vivel, segundo o portal Taiwan News. No lugar do tubaro, a cooperativa Kouhu vende barbatanas de tilpia de Taiwan, um peixe largamente domesticado, a restaurantes de Taiwan, Hong Kong e Japo. O diretor da cooperativa, Wang Yi-feng, diz que eles vendem a preos 4 vezes menores, o que motiva a procura. A medida diminui a demanda pelos tubares e eleva o valor agregado da tilpia, que deixa de ser s rao de peixe para ser tambm comida sofisticada. Alm disso, ela no tem mercrio, comumente encontrado no tubaro. Para Dan Barber, o chef defensor do foie gras verde, o futuro de toda a comida est em pratos assim. 

MAS E A  BOM?
Para a jornalista taiwanesa Rachel Chan, autora de reportagens sobre a tradio, no h diferena entre sopa de barbatana de tubaro e de tilpia de Taiwan. No tm muito gosto e a textura  a mesma, diz. Quem se preocupa com os animais vai escolher essa alternativa.


4. TECNOLOGIA  O SILCIO  NOSSO
Kinect. Android. Grooveshark. Instagram. As maiores novidades da tecnologia tm uma coisa em comum: foram inventadas ou so comandadas por brasileiros. Veja como conquistamos o Vale do Silcio  e as histrias das pessoas que esto fazendo isso acontecer.
TEXTO ANDR GRAVAT 
DESIGN RICARDO DAVINO

     Quando jogava tnis com os amigos em Belo Horizonte, Hugo Barra nem sonhava em chefiar um dos maiores softwares do mundo  usado por mais de 300 milhes de pessoas todos os dias. Paulo da Silva sempre adorou msica. Mas no sabia que iria montar uma jukebox virtual com 15 milhes de MP3. Alex Kipman gostava de ir s praias de Natal, tanto que usou esse nome para batizar um gadget  mas no sabia que ele viria a transformar completamente a interao entre as pessoas e as mquinas. E, quando Mike Krieger saiu de So Paulo para ir estudar nos EUA, nem passava pela sua cabea que, com apenas 26 anos, venderia um aplicativo por US$ 1 bilho. Hugo  gerente mundial do Android, o sistema operacional do Google para celular. Paulo  o funcionrio nmero um do Grooveshark, que est entre os maiores sites de msica da internet. Mike  o criador do Instagram, um dos aplicativos mais baixados do mundo. E todos eles so brasileiros. 
     O Brasil est na linha de frente dos projetos tecnolgicos mais quentes do momento. E, sim, isso tem a ver com o nosso jeitinho  no bom sentido. Ns no somos sistemticos, obedientes e cooperativos como os japoneses. Tampouco temos o voluntarismo, a liderana e o preparo cientfico dos americanos. Mas a criatividade e a capacidade de improviso tpicas do brasileiro explicam sua ascenso no mundo da tecnologia, diz Milton Campanrio, professor da Faculdade de Economia e Administrao da USP.  graas a esse estilo, mais grandes doses de esforo e sorte, que os brasileiros esto conquistando o Vale do Silcio.
     Filho de um executivo que rodava o mundo a negcios, Mike Krieger e sua famlia saram de So Paulo para morar em Portugal quando ele tinha apenas 4 anos. Nessa poca, ganhou seu primeiro computador. Depois de morar em cidades como Miami e Buenos Aires, voltou ao Brasil aos 15 anos. No ficou muito. Aos 18 anos, ele foi para a Universidade Stanford, nos EUA, uma das melhores do mundo. Mike foi estudar Symbolic Systems (Sistemas Simblicos), uma disciplina cabeuda que mistura matrias como programao, design e filosofia. Mas, no terceiro ano do curso, conheceu um americano chamado Kevin Systrom e juntos eles tiveram a ideia de criar algo bem despretensioso: um aplicativo que deixava as fotos com cara de filme fotogrfico antigo. Nascia o Instagram, que j no primeiro dia teve 20 mil downloads. O aplicativo foi ganhando popularidade at que, em abril deste ano, acabou comprado pelo Facebook por US$1 bilho. Mesmo com US$100 milhes a mais na conta   o valor que Mike vai embolsar , ele diz que seus hbitos no mudaram e continua indo de bicicleta para o trabalho (a sede da empresa, com apenas 13 funcionrios, fica em So Francisco). Estou realizando meu sonho: criar uma empresa que tenha um grande impacto, conta. Mike vem uma vez por ano ao Brasil e diz ter vontade de colaborar com o desenvolvimento do pas. Eu continuo superinteressado no futuro das empresas de tecnologia no Brasil.

DE MINAS PARA O ANDROID
     O mineiro Hugo Barra, 35 anos, estudou em um colgio pacato de Belo Horizonte, ao lado de um zoolgico. Foi cursar engenharia eltrica na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). At que um dia, durante uma partida de tnis, um amigo comentou com ele sobre o Massachusetts Institute of Technology (MIT), universidade que est entre os maiores centros tecnolgicos do mundo. Hugo ficou encantado e comeou a estudar para tentar entrar no MIT  o que conseguiu um ano depois. Cursou cincias da computao, foi trabalhar no laboratrio de inteligncia artificial do MIT e montou uma empresa de softwares de reconhecimento de voz. Chamou a ateno do Google, que em 2008 o contratou para trabalhar no Android (em substituio, alis, a outro brasileiro: Mario Queiroz, que estava indo dirigir o projeto Google TV).
     Hugo comeou adaptando os servios do Google, como busca e Gmail, para os celulares. Foi subindo na hierarquia da empresa at se tornar gerente mundial do Android. Ns queremos ter certeza de que o sistema operacional  o melhor e mais rico possvel, diz. Em suas horas de folga, Hugo gosta de jogar squash e danar salsa.
     O curitibano Alex Kipman tambm tem um lado musical: gosta de tocar piano para arejar as ideias. Mas foi o silncio do campo que o inspirou. Nas semanas de 2007 em que se hospedou na chcara da tia, no Paran, ele se sentiu muito feliz. Imerso no clima do campo, comeou a refletir sobre como a tecnologia s vezes escraviza as pessoas, com botes, telas e comandos aos quais os humanos tm de se adaptar  e no o contrrio. Fez algumas anotaes em um caderninho preto, que sempre levava consigo. Delas surgiu o chamado Projeto Natal, mais tarde rebatizado de Kinect.  o aparelho da Microsoft que permite controlar games com os movimentos do corpo, e j vendeu 18 milhes de unidades. Foi o comeo de uma nova era para o mundo digital. Um mundo onde a tecnologia entende voc para que voc no tenha de entend-la, declarou ao New York Times.
     Alex entrou em contato com a tecnologia aos 5 anos, por meio dos jogos do Atari 2600  presente do pai diplomata e embaixador do Brasil no Haiti. Por causa da profisso paterna, Kipman morou tambm em Braslia, Roma e Miami. Por volta dos 10 anos, comeou a aprender computao. Mais tarde, foi fazer faculdade de engenharia de software no Rochester Institute of Technology, em Nova York. Aos 19 anos, montou uma empresa de tecnologia, que no deu certo. Foi trabalhar para a Nasa, escrevendo softwares para supertelescpios. Acostumou-se a dormir pouco, s vezes 3 horas por noite.
     A entrada na Microsoft foi inesperada. Kipman recebeu um telefonema da empresa  um contato surgido do nada, como ele mesmo diz. Ele usava softwares de cdigo aberto e no era f da Microsoft. Mas, ao chegar l, foi recebido por ningum menos do que Bill Gates. Alex disse que ficou embasbacado. E aceitou a oferta de emprego. Trabalhou em produtos como o Windows Vista at que um dia, de frias, teve a ideia do Kinect. Hoje,  diretor de incubao da Microsoft, responsvel por novas tecnologias. E, para economizar tempo, s l e-mails uma vez por semana. Mesmo quem trabalha com tecnologia precisa de um tempo desconectado.
     Paulo da Silva se sentia assim quando ganhou o primeiro computador, na infncia. Eu no o entendia muito bem, diz. Mas seu interesse foi aumentando. Aos 12 anos, Paulo entrou num curso de programao de software e comeou a desenvolver programas para empresas de amigos e parentes. O pai dele recebeu um convite de trabalho e se mudou para os EUA, levando a famlia. Em 2006, Paulo foi estudar engenharia da computao na Universidade da Flrida. Meu sonho era criar uma empresa de desenvolvimento de software, comenta. Nada disso. Paulo ficou sabendo que um site desconhecido, o Grooveshark, estava procurando seu primeiro funcionrio. Ele  uma jukebox virtual, ou seja, um site em que voc pode entrar e ouvir qualquer msica na hora sem precisar baix-la para o seu computador. Hoje, o site tem um acervo com 15 milhes de msicas e mais de 30 milhes de usurios.
     Mas em 2006 no era assim. Quando Paulo chegou  sede da empresa, encontrou os trs fundadores de bermuda e chinelo. Se  que dava para chamar aquilo de sede: uma sala onde no havia nem mesas e os computadores ficavam em cima de caixas de papelo. Mesmo assim, Paulo quis o emprego  e foi contratado. Hoje  engenheiro snior do site. Ele mora em Gainesville, Flrida, cidadezinha de 124 mil habitantes, onde fica a sede do Grooveshark. E quer ajudar outras pessoas  brasileiras inclusive  a chegar l. Meu sonho  mudar a educao na rea de cincias da computao. As faculdades aqui so caras e no ensinam tudo o que voc deve saber para conseguir um emprego. Inteligncia, estudo, trabalho. E um pouco de gingado. 
PARA SABER MAIS
What Makes Silicon Valley Tick?
Tapan Munroe, Nova Vista Publishing, 2009.

ALEX KIPMAM  Inventor do Kinect
Nascido em Curitiba, PR.
33 anos
Durante as frias na chcara da tia, teve uma grnade ideia.

PAULO DA SILVA  Eng. Snior no Grooveshark
Nascido em So Paulo, SP
24 anos 
A empresa nem mesas tinha. Ma ele topou tranalhar l: e se deu bem.

HUGO BARRA  Gerente mundial do Android
Nascido em Belo Horizonte, MG
35 anos
Cismou de estudar nos EUA. At chamar a ateno do Google.

MIKE KRIEGER   Criador do Instagram
Nascido em Arax, MG
26 anos
Apostou em uma ideia despretensiosa  que hoje vale US$ 1 bilho.


5. ZOOM  ESCALAS MARINHAS
Eles nascem com milmetros e alcanam metros de comprimento, nadam das praias rasas s guas abissais. Em fotos nicas, produzidas em tanques especiais, conhea as medidas dos animais do fundo do mar.
TEXTO LUIZ ROMERO
DESIGN RAPHAEL GALASSI
FOTOS MARK LAITA

INFERNO PROFUNDO  O peixe-diabo-negro parece um monstro.  S parece: os machos no passam de 3 cm e as fmeas chegam a apenas 20 cm.  So elas que carregam um farol pendurado na testa, usado para atrair as presas.  Mas, apesar de pequenos, so fortes: nadando to fundo, cada centmetro do corpo do peixe aguenta uma presso equivalente a 150 Kg. PEIXE-BIABO-NEGRO  Melanocetus johnsonii.

BICHOS CAMUFLADOS  Estes quatro peixes vivem prximos ou integrados a recifes de coral.  Usam cores fortes para se camulha entre criaturas igualmente coloridas, como os lrios-do-mar O maior recife do mundo, A Grande Barreira de Corais, na Austrlia, abriga 1,5 mil espcies parecidas com estas. Cephalopholis miniata; Calloplesiops altivelis; Halichoeres richmondi; Cromileptes altivelis.

ESCALA MILIMTRICA  Enquanto este cavalo-marinho pode chegar a 30cm, os filhotes medem poucos milmetros ao nascer. Eles surgem depois que a fmea deposita vulos em uma bolsa na barriga do macho, que  responsvel pela fertilizao. CAVALO-MARINHO  Hippocampus Kuda; LRIO DO MAR, 30cm; 

BRIGA DE GIGANTES  Entre os peixes, nenhum ganha do tubaro-baleia: ele costuma medir cerca de 8m e chega a viver at 100 anos. Muito maior que o polvo-gigante-do-pacfico, com 5m e, no mximo, cinco anos de vida.  A arraia-leopardo, um peixe cartilaginoso, como os tubares, mede cerca de 2m. TUBARO-BALEIA  Rhincodon Typus, 8m; POLVO-GIGANTE-DO-PACFICO  Enteroctopus dofleini, 5m;  ARRAIA-LEOPARDO  Himantura undulata, 2m

GUA-VENENOSA  Com tentculos que podem medir metros, a gua-viva, apesar de ser quase inteiramente feita de gua, usa veneno para se proteger e pode machucar.  Estas duas so quase inofensivas, causam apenas irritao na pele e a sensao de queimadura. Mas existem espcies que carregam veneno suficiente para matar 60 pessoas. GUA-VIVA-JAPONESA  Chysaora melanaster, 40cm; GUA-VIVA  Catostylus mosaicus, 3m.

PEIXE-BOLHA  Com cerca de 30cm, o peixe-porco-espinho, mais conhecido como baiacu, consegue dobrar de tamanho para espantar outros bichos, ajudado por espinhos que acompanham o arredondamento do corpo. Ele infla ao engolir e acumular gua no estmago, que  muito elstico.  Alm do tamanho, algumas espcies so mortais: poucas gramas de veneno j so suficientes para matar. PEIXE-PORCO-ESPINHO  Diodon holocanthus, tamanho original 30cm, tamanho inflado 60cm.

PARA SABER MAIS
Sea. Mark laita, 2011, Abrams


6. ESPECIAL  ATLAS OLMPICO
Desde a primeira Olimpada da era moderna, em 1896 (quando a ilha de Creta ainda competia como uma nao), foram 99.429 atletas e 13.918 medalhas numa disputa que envolveu mais de 200 pases (muitos dos quais no existem mais). Este atlas organiza um pouco esse caos olmpico. Aproveite, porque ele s vale at o dia 27 de julho, quando a pira olmpica acende de novo, pela 27 vez.
INFOGRFICOS ALEXANDRE VERSIGNASSI, JORGE OLIVEIRA, CRISTINE KIST, FELIPE TURCHETI

MEDALHAS  OS MAIORES VENCEDORES
OS EUA ganharam 16% das 13.918 medalhas j distribudas. Metade disso foi antes de a Unio Sovitica estrear (em 1952). Os soviticos ganhariam 1007 medalhas usando esse nome, at 1988  aqui, contabilizamos as medalhas que as repblicas da ex-URSS ganharam juntas at 2008. E os 20 maiores vencedores, mais o Brasil aparecem com estatsticas mais detalhadas.

EUA
Total: 2321
Posio no ranking: 1
OUROS: 943
PRATAS: 736
BRONZES: 642

PASES DA EX-URSS
Total: 1641
Posio no ranking: 2
OUROS: 569
PRATAS: 483
BRONZES: 477

ALEMANHA
Total: 1297
Posio no ranking: 3
OUROS: 411
PRATAS: 425
BRONZES: 461

GR-BRETANHA
Total: 746
Posio no ranking: 4
OUROS: 216
PRATAS: 273
BRONZES: 257

FRANA
Total: 693
Posio no ranking: 5
OUROS: 211
PRATAS: 224
BRONZES: 258

ITLIA
Total: 549
Posio no ranking: 6
OUROS: 203
PRATAS: 168
BRONZES: 178

SUCIA
Total: 489
Posio no ranking: 7
OUROS: 143
PRATAS: 165
BRONZES: 181

HUNGRIA
Total: 472
Posio no ranking: 8
OUROS: 162
PRATAS: 147
BRONZES: 163

AUSTRLIA
Total: 439
Posio no ranking: 9
OUROS: 131
PRATAS: 140
BRONZES: 168

CHINA
Total: 385
Posio no ranking: 10
OUROS: 163
PRATAS: 117
BRONZES: 105

JAPO
Total: 362
Posio no ranking: 11
OUROS: 123
PRATAS: 112
BRONZES: 127

FINLNDIA
Total: 308
Posio no ranking: 12
OUROS: 106
PRATAS: 85
BRONZES: 117

ROMNIA
Total: 292
Posio no ranking: 13
OUROS: 86
PRATAS: 89
BRONZES: 117

POLNIA
Total: 269
Posio no ranking: 14
OUROS: 65
PRATAS: 82
BRONZES: 122

CANAD
Total: 263
Posio no ranking: 15
OUROS: 59
PRATAS: 96
BRONZES: 108

HOLANDA
Total: 257
Posio no ranking: 16
OUROS: 74
PRATAS: 82
BRONZES: 101

COREIA DO SUL
Total: 215
Posio no ranking: 17
OUROS: 68
PRATAS: 74
BRONZES: 73

BULGRIA
Total: 212
Posio no ranking: 18
OUROS: 51
PRATAS: 84
BRONZES: 77

SUIA
Total: 198
Posio no ranking: 19
OUROS: 53
PRATAS: 78
BRONZES: 67

CUBA
Total: 188
Posio no ranking: 20
OUROS: 66
PRATAS: 62
BRONZES: 60

BRASIL
Total: 91
Posio no ranking: 29
OUROS: 20
PRATAS: 25
BRONZES: 46

MEDALHAS PER CAPITA
Com finlands no h quem possa: com 308 medalhas e 5,4 milhes de habitantes, a Finlndia  o pas que tem mais medalhas por cabea. Aqui nas bolinhas vai a quantidade de medalhas por habitante (em milsimos de medalha). Destaque para dois pases do Caribe.
1 FINLNDIA: 0,057
2 SUCIA: 0,052
3 HUNGRIA: 0,047
4 DINAMARCA: 0,033
5 BAHAMAS: 0,031
6 NORUEGA: 0,030
7 BULGRIA: 0,029
8 MNACO: 0,028
9 SUA: 0,025
10 JAMAICA: 0,020
74 BRASIL: 0,00047

ESPORTES  NO QUE ELES SO BONS
A vela e o jud so responsveis por um tero das medalhas do Brasil. A Austrlia  triatleta: ganhou quase tudo o que tem s com natao, ciclismo e atletismo. Cuba  puro boxe. Italianos e franceses, definitivamente, so espada. E a Luta greco-romana poderia mudar de nome para luta iraniano-turca.

Aqui esto os 20 pases com mais medalhas (dos EUA, o 1, a Cuba, o 20). Entram tambm 5 naes hiper-especializadas do top 50 (Jamaica, Qunia, Ir, Turquia e ndia)  mais o Brasil, que no  nem top 20 nem hiperespecialista, mas que  Brasil, amigo da SUPER!

EUA
Atletismo: 759 (322 ouro; 242 prata; 195 bronze)
Natao: 489 (216 ouro; 153 prata; 120 bronze)
Saltos ornamentais 128 (47 ouro; 40 prata; 41 bronze)

CANAD
Atletismo: 52 (13 ouro; 14 prata; 25 bronze)
Remo: 38 (9 ouro; 14 prata; 15 bronze)
Natao: 40 (7 ouro; 13 prata; 20 bronze)

CUBA
Boxe: 63 (32 ouro; 19 prata; 12 bronze)
Atletismo: 37 (10 ouro; 13 prata; 14 bronze)
Jud: 32 (5 ouro; 11 prata; 16 bronze)

JAMAICA
Atletismo: 54 (11 ouro; 26 prata; 15 bronze)
Ciclismo: 1 (1 bronze)

BRASIL
Atletismo: 14 (4 ouro; 3 prata; 7 bronze)
Jud: 15 (2 ouro; 3 prata; 10 bronze
Vela: 16 (6 ouro; 3 trata; 7 bronze)

INGLATERRA
Ciclismo: 69 (2 ouro; 28 prata; 21 bronze)
Natao: 70 (16 ouro; 24 prata; 30 bronze)
Atletismo: 197 (52 ouro; 83 prata; 62 bronze)

HOLANDA
Natao: 53 (18 ouro; 17 prata; 18 bronze)
Ciclismo: 40 (15 ouro; 16 prata; 9 bronze
Hipismo: 22 (19 ouro; 10 prata; 2 bronze)

ALEMANHA
Remo: 116 (60 ouro; 27 prata; 29 bronze)
Natao 187 (55 ouro; 61 prata; 71 bronze
Atletismo: 253 (69 ouro; 89 prata; 95 bronze)

SUA
Ginstica: 48 (16 ouro; 19 prata; 13 bronze)
Remo: 23 (6 ouro; 8 prata; 9 bronze)
Tiro: 20 (6 ouro; 6 prata; 8 bronze)

FRANA
Atletismo: 25 (13 ouro; 22 prata; 25 bronze)
Ciclismo: 93 (41 ouro; 25 prata; 27 bronze
Esgrima: 120 (44 ouro; 41 prata; 35 bronze)

BULGRIA
Atletismo: 18 (5 ouro; 7 prata; 6 bronze
Levantamento de peso: 36 (12 ouro; 16 prata; 8 bronze)
Luta Greco-Romana: 67 (16 ouro; 31 prata; 20 bronze)

NORUEGA
Atletismo: 20 (7 ouro; 5 prata; 8 bronze)
Tiro: 32 (13 ouro; 8 prata; 11 bronze)
Vela: 31 (17 ouro; 11 prata; 3 bronze)

FINLNDIA
Atletismo: 113 (48 ouro; 35 prata; 30 bronze)
Luta: 83 (26 ouro; 28 prata; 29 bronze)
Ginstica: 25 (8 ouro; 5 prata; 12 bronze)

PASES DA EX-URSS
Ginstica: 284 (111 ouro; 101 prata; 72 bronze)
Atletismo: 336 (106 ouro; 109 prata; 121 bronze)
Luta: 215 (98 ouro; 58 prata; 59 bronze)

ITLIA
Atletismo: 59 (44 ouro; 44 prata; 44 bronze)
Ciclismo: 60 (44 ouro; 44 prata; 44 bronze)
Esgrima: 116 (44 ouro; 44 prata; 44 ronze)

POLNIA
Atletismo: 52 (22 ouro; 17 prata; 13 bronze)
Boxe: 43 (8 ouro; 9 prata; 26 bronze)
Luta: 24 (5 ouro; 9 prata; 10 bronze)

HUNGRIA
Natao: 65 (24 ouro; 24 prata; 17 bronze)
Canoagem: 71 (19 ouro; 27 prata; 25 bronze)
Esgrima: 83 (34 ouro; 22 prata; 27 bronze)

SUCIA
Tiro: 57 (15 ouro; 23 prata; 19 bronze)
Luta Greco-Romana: 81 (28 ouro; 27 prata; 26 bronze)
Atletismo: 92 (21 ouro; 25 prata; 46 bronze)

CHINA
Ginstica: 51 (22 ouro; 15 prata; 14 bronze)
Saltos Ornamentais: 49 (27 ouro; 14 prata; 8 bronze)
Levantamento de peso: 43 (24 ouro; 11 prata; 8 bronze)

JAPO
Natao: 62 (20 ouro; 21 prata; 21 bronze)
Jud: 65 (35 ouro; 15 prata; 15 bronze)
Ginstica: 92 (28 ouro; 31 prata; 33 bronze)

ROMNIA
Ginstica: 48 (24 ouro; 20 prata; 25 bronze)
Remo: 23 (19 ouro; 10 prata; 8 bronze)
Atletismo: 20 (11 ouro; 14 prata; 10 bronze)

IR
Luta: 32 (5 ouro; 12 prata; 15 bronze)
Levantamento de peso: 12 (4 ouro; 3 prata; 5 bronze)
Taekwondo: 4 (ouro 2; bronze 2)

NDIA
Hquei: 11 (8 ouro; 1 prata; 2 bronze)
Tiro: 2 (1 ouro; 1 prata)
Atletismo: 2 (2 prata)

CORIA DO SUL
Arco e flecha: 30 (16 ouro; 9 prata; 5 bronze)
Luta Greco-Romana: 34 (10 ouro; 11 prata; 13 bronze)
Jud: 37 (9 ouro; 14 prata; 14 bronze)

TURQUIA
Luta: 57 (28 ouro; 16 prata; 13 bronze)
Levantamento de peso: 10 (8 ouro; 1 prata; 1 bronze)
Boxe: 5 (2 prata; 3 bronze)

QUNIA
Atletismo: 68 (22 ouro; 27 prata; 19 bronze)
Boxe: 7 (1 ouro; 1 prata; 5 bronze)

AUSTRLIA
Ciclismo: 42 (13 ouro; 16 prata; 13 bronze)
Atletismo: 70 (19 ouro; 24 prata; 27 bronze)
Ciclismo: 42 (13 ouro; 16 prata; 13 bronze)


ESPORTISTAS  OS MAIORES ATLETAS
Neste mapa, cada pas est desenhado com as Letras do nome de seu maior medalhista em nmero de ouros. Para os pases do top 20, mais o Brasil, um bnus: um pdio com os 3 atletas mais medalhados de cada um.

CANAD
1. Kathleen Heddle  Remo 
2. Marnie MacBean  Remo
3. Jessica Monroe  Remo

EUA
1. Michael Phelps  Natao
2. Mark Spitz  Natao
3. Carl Lewis  Atletismo
EXRCITO DE UM HOMEM S - Se Michael Phelps sozinho fosse um pas, ele e seus 16 ouros estariam em 37 lugar no ranking de naes mais laureadas, logo abaixo da Argentina e  frente de Jamaica, Mxico, Ir e outros 161 pases.

CUBA
1. Ramn Fonst  Esgrima
2. Flix Savn  Boxe
3. Tefilo Stevenson  Boxe

BRASIL
1. Torben Grael  Vela
2. Robert Scheidt  Vela
3. Marcelo Ferreira  Vela
OUTSIDERS - No Brasil, Torben Grael reina. E s Giovane e Maurcio, do vlei, mais o saltador Adhemar Ferreira da Silva, tm dois ouros e no so velejadores.

AQUI  CURNTIA, MANO - Ex-Corinthians e atual Barcelona, Javier Mascherano  tecnicamente o maior atleta olmpico da histria da Argentina. S ele tem dois ouros l.

FRANA
1. Lucien Gaudin  Esgrima
2. Christian dOriola  Esgrima
3. Flicia Ballanger  Ciclismo
DAS ANTIGAS - Os 8 maiores medalhistas da Frana so da esgrima. E a maior parte das medalhas conquistadas por eles foi obtida entre 1920 e 1948.

ITLIA
1. Edoardo MAngiarotti  Esgrima
2. Nedo Nadi  Esgrima
3. Valentina Vezzali  Esgrima

PASES DA ex-URSS
1. Larysa Latynina  Ginstica
2. Nicolai Andrinos  Ginstica
3. Boris Shakhlin  Ginstica
A MAIOR DE TODAS - A ucraniana Larysa Latynina, ginasta dos anos 50 e 60, tem menos ouros que Phetps, mas no total duas medalhas a mais: 18. So 4,5 kg em ouros, pratas e bronzes!

FINLANDS VOADOR  Paavo Nurmi foi o Michael Phelps do seu tempo, s que no atletismo.  E E apesar do apelido (que titula esta legenda) no era to veloz: a especialidade dele eram as provas de fundo.

CHINA
1. Guojin Gjin  Saltos Ornamentais
2. Wang Nan  Tnis de Mesa
3. Li Xiaopeng  Ginstica

JAPO
1. Sawao Kato  Ginstica
2. Akinori Nakayama  Ginstica
3. Takashi Ono  Ginstica

AUSTRLIA
1. Ian Thorpe  Natao
2. Dawn Fraser  Natao
3. Murray Rose  Natao

ALEMANHA
1. Birgit Fischer-Schmidt - Canoagem
2. Isabell Werth  Hipismo
3. Reiner Klimke  Hipismo

INGLATERRA
1. Steven Redgrave  Remo
2. Chris Hoy  Ciclismo
3. Paul Radmilovic  Natao / Plo Aqutico

HOLANDA
1. Inge de Bruijn - Natao
2.Leontien Ziitaard Moorsel - Ciclismo
3. Charles Pahud de Mortanges - Hipismo

SUA
1. George Miez  Ginstica
2. Konrad Stheli  Tiro
3. Eugen Mack  Ginstica

POLNIA
1. Robert Korzeniowaki  Atletismo
2. Irena Szewinka-Kirszenstein  Atletismo
3. Tomasz Kucharski  Remo

SUCIA
1. Gert Fredriksson  Canoagem
2. Henri Saint Cyr  Hipismo
3. Agneta Anderson  Canoagem

HUNGRIA
1. Aladr Gerevich  Esgrima
2. Rudolf Krpti  Esgrima
3. Pl Kovcs  Esgrima

FINLNDIA
1. Paavo Nurmi  Atletismo
2. Ville Ritola  Atletismo
3. Hannes Kolehmainen  Atletismo

ROMNIA
1. Nadia Comaneci  Ginstica
2. Elisabeta Oleniuc-Lipa  Remo
3. Georgeta Damian-Andrunache  Remo

BULGRIA
1. Mariya Grozdeva  Tiro
2. Nikolav Bukhalov  Canoagem
3. Tanyu Kiryakov  Tiro

